Júlio Bressane. Nunca chegue perto de um filme de Júlio Bressane. O sujeito acaba de lançar Cleópatra, com Alessandra Negrini no papel título, Miguel Falabella como Júlio César e Bruno Garcia como Marco Antônio. Qualquer diretor que escale Miguel Falabella para ser Júlio César merece ser escorraçado e ridicularizado pela crítica, mas não é isso o que ocorre, pelo contrário. Bressane é endeusado. Eu não vi o filme e não verei. Preconceito? Nada disso. Eu já tive a minha cota de Bressane. Vi, no cinema, há uns 10 anos, Matou a família e foi ao cinema, e assisti a trechos de Tabu e Dias de Nietzsche em Turim. Matou a família e foi ao cinema é um dos filmes mais insuportáveis de todos os tempos – embora, justiça seja feita, a refilmagem feita por Neville D’Almeida seja pior. Mas voltemos ao filme de Bressane. Se a memória não me trai, é em Matou a família e foi ao cinema que há uma das cenas paradigmáticas do cinema pretensioso que não respeita o saco do espectador: filmado de longe, um ator – acho que o sujeito que matou a família e foi ao cinema - lê o jornal sentado num banco. Depois de alguns minutos, ele larga o jornal e sai de cena. A câmera segue então o jornal por um bom tempo. Você pensa que o movimento de câmera tão insistente conectará a ação a outra cena, mas que nada. Depois de intermináveis segundos perseguindo o jornal, nada acontece. Eu lembro de poucos detalhes do filme, mas a impressão de chatice crônica, com sua narrativa fragmentária, pretensiosa e entediante, continua viva na minha memória. De Tabu, eu não lembro quase nada, apenas de um Caetano Veloso magérrimo como Lamartine Babo. Há algumas semanas, eu vi uns 20 minutos de Dias de Nietzsche em Turim, acho que no Canal Brasil. Fui em busca de uma pornochanchada honesta, mas me deparei com Bressane. Por uma combinação de masoquismo e curiosidade, dei uma olhada no troço. Nos trechos que eu vi, uma voz em off lê textos do homem do eterno retorno, enquanto o coitado do ator que interpreta Nietzsche – com um dos bigodes mais mal feitos da história do cinema – aparece ora andando, ora parado. Desisti rápido, com medo de morrer de tédio em frente da televisão. Esse contato com o cinema de Bressane já é suficiente para que eu não veja Cleópatra nem se me pagaram muito dinheiro. Mas o filme grita que é uma roubada mesmo para quem é virgem em Bressane – a começar pela escolha do elenco. Quem sabe ler nas entrelinhas percebe que mesmo as reportagens e críticas que elogiam Cleópatra deixam claro que o negócio é uma roubada. As declarações de Bressane mostram que ele é um picareta no estado da arte. Em entrevista a José Geraldo Couto, na Folha, ele diz que a sua intenção é “tentar ver esse mito da perspectiva da música da língua portuguesa, tal como ela se expressa no Brasil. É uma Cleópatra lírica, não épica”. É claro que isso não faz o menor sentido. À vontade no papel de gênio, Bressane vai mais longe: "Cleópatra, última representante da dinastia dos Ptolomeus, seduziu Júlio César por sua cultura refinada, seu uso do grego arcaico. Com Marco Antonio, a relação é sobretudo carnal. Com César, ela desenvolve a idéia de fundir o Império Romano com Alexandria. A imagem é a da pirâmide que sobe. Com Marco Antonio, a pirâmide desce, vira vulva, é o abismo dionisíaco, a ponto de ela abandonar a vida que não fosse a vida sexual." “A pirâmide desce, vira vulva, é o abismo dionisíaco”. Eu cito mais uma vez a frase, para explorar sonoridade do que é um quase verso. Quando eu leio coisas como essa, fico na dúvida se o sujeito está de sacanagem e quer testar a inteligência do entrevistador e dos leitores ou se realmente acredita no que disse. A crítica, porém, não está preocupada com isso. Veja o que diz - também na Folha - Cássio Starling Carlos sobre o filme, ao comentar a escolha do elenco: “Cleópatra brinca com os clichês hollywoodianos. Ao usar o Rio como cenário egípcio, parodia a versão faraônica com Elizabeth Taylor que levou o estúdio à falência. Ao escalar os globais Alessandra Negrini, Miguel Falabella e Bruno Garcia para os papéis centrais ironiza esta outra Holywood, bem nossa e bem próxima”. Se tudo isso ainda não o convenceu a não ver o filme, tento mais uma cartada, citando um trecho da reportagem de Couto: “A inversão de poder entre Roma e Egito, entre homem e mulher, se expressa numa cena das mais curiosas, na qual César e Cleópatra falam cada um com a voz do outro”. Se eu fosse Cássio Starling Carlos, diria que Bressane na verdade parodia o filme com o Tony Tamos e a Glória Pires. Como eu não sou, digo que é palhaçada mesmo